Até que tento me desligar das provocações feitas ao mundo pelos governos de Israel, mas são tão impressionantes as estupidezes autoritárias e racistas dessas pessoas que enxovalham a dignidade judaica em nome de um reich sionista intocável, incriticável. Daí ser incontornável, como simples cidadão, insistir em resistir a tais desvarios. E aqui vou eu, novamente.

Günter Grass, prêmio Nobel de Literatura, banido pelo governo israelense
A reação do governo israelense ao poema do alemão Günter Grass, equivocadamente, está sendo apresentada pela grande mídia internacional como algo inusitado, um fato novo. Ora, tal foco está propositalmente deslocado. Proibir alguém de visitar Israel é algo corriqueiro por parte dos sionistas. Quem critica os erros e crimes desses governantes (de quaisquer partidos no poder em Israel) é carimbado como “antissemita” e, a depender da projeção do crítico, sua entrada é vetada na “única democracia do Oriente Médio”.
Especialmente judeus (autênticos, filhos de ventres hebreus) são alvo dessas ações antidemocráticas. Noam Chomsky é o exemplo mais conhecido. Considerado um dos intelectuais mais expressivos dos tempos atuais, nascido nos Estados Unidos, filho de um eminente pesquisador de hebraico, foi impedido de pisar em solo israelense, no dia 16 de maio de 2010, num incidente kafkiano devidamente minimizando pela mídia favorável. E olhe que Noam Chomsky viveu num kibutz na década de 50, nos primórdios da construção do Estado de Israel. E quem era o chefe de governo israelense em maio de 2010? Bibi Netanyahu!
Voltemos a Günter Grass. E que poema ele teria concebido que causou tamanho reboliço no fuhrer Bibi e seus áulicos? Chama-se “O que há a dizer” e está reproduzido ao fim dessas linhas.
E será que Israel correria o risco de ser visitado pelo escritor alemão? Vejamos o que ele mesmo diz: “Apoiei frequentemente Israel, visitei frequentemente o país e quero que o país exista e encontre finalmente a paz com seus vizinhos”, declarou o vetado ao Sueddeutsche Zeitung.
Atropelando a anterioridade de aceitação dos gestos de solidariedade feitos por Grass, inclusive suas visitas a Israel, Bibi – de repente – se lembrou que o alemão foi soldado SS quando jovem. Mas esqueceu-se disso quando o escritor lhe foi favorável. E, ademais, todos os membros das forças armadas alemãs (SS ou não) que se envolveram nas ações criminosas contra judeus foram identificados e perseguidos implacavelmente pelos “caçadores de nazistas”. Se alemães (que, quando jovens serviram as forças armadas de seu país sob Hitler) como Günter Grass e Joseph Ratzinger puderam seguir normalmente suas vidas depois da derrota nazista é porque estavam “limpos” frente a eficientíssima máquina de investigação judaica.
E, afinal, o que Günter Grass teria versejado? Não é nada fácil localizar o poema na web (será que a autoproclamada democracia internáutica pratica alguma forma de censura?). Note-se que um dos motes do poema é o fato (incrível e aterrorizante) da Alemanha ter cedido um submarino nuclear ao governo israelense!
Localizei-o, enfim, no sítio do Nassif, de onde o colhi e, pelo mesmo preço, repasso-o a vocês, mantendo a escrita original do português de Portugal (que, como se lê, desconhece o “acordo ortográfico”):
O que há a dizer
Porque guardo silêncio, há demasiado tempo,
sobre o que é manifesto
e se utilizava em jogos de guerra
em que no fim, nós sobreviventes,
acabamos como meras notas de rodapé.
É o suposto direito a um ataque preventivo,
que poderá exterminar o povo iraniano,
conduzido ao júbilo
e organizado por um fanfarrão,
porque na sua jurisdição se suspeita
do fabrico de uma bomba atómica.
Mas por que me proibiram de falar
sobre esse outro país [Israel] onde há anos
- ainda que mantido em segredo –
se dispõe de um crescente potencial nuclear,
que não está sujeito a qualquer controlo,
já que é inacessível a qualquer inspecção?
O silêncio geral sobre esse facto,
a que se sujeitou o meu próprio silêncio,
sinto-o como uma gravosa mentira
e coacção que ameaça castigar
quando não é respeitada:
“anti-semitismo” se chama a condenação.
Agora, contudo, porque o meu país,
acusado uma e outra vez, rotineiramente,
de crimes muito próprios,
sem quaisquer precedentes,
vai entregar a Israel outro submarino
cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras
para onde não ficou provada
a existência de uma única bomba,
se bem que se queira instituir o medo como prova… digo o que há a dizer.
Por que me calei até agora?
Porque acreditava que a minha origem,
marcada por um estigma inapagável,
me impedia de atribuir esse facto, como evidente,
ao país de Israel, ao qual estou unido
e quero continuar a estar.
Por que motivo só agora digo,
já velho e com a minha última tinta,
que Israel, potência nuclear, coloca em perigo
uma paz mundial já de si frágil?
Porque há que dizer
o que amanhã poderá ser demasiado tarde,
e porque – já suficientemente incriminados como alemães –
poderíamos ser cúmplices de um crime
que é previsível,
pelo que a nossa quota-parte de culpa
não poderia extinguir-se
com nenhuma das desculpas habituais.
Admito-o: não vou continuar a calar-me
porque estou farto
da hipocrisia do Ocidente;
é de esperar, além disso,
que muitos se libertem do silêncio,
exijam ao causante desse perigo visível
que renuncie ao uso da força
e insistam também para que os governos
de ambos os países permitam
o controlo permanente e sem entraves,
por parte de uma instância internacional,
do potencial nuclear israelita
e das instalações nucleares iranianas.
Só assim poderemos ajudar todos,
israelitas e palestinianos,
mas também todos os seres humanos
que nessa região ocupada pela demência
vivem em conflito lado a lado,
odiando-se mutuamente,
e decididamente ajudar-nos também.
É isto aí. O que você acha? De mim tem o aplauso, a admiração.