Às 10:14

Discriminação racial no Brasil: existe ou não existe? – Esta é a questão?

29 ago

São Paulo/SP – Mais uma vez a trabalho, estou na Pauliceia. Hospedado, graças à generosidade da empresa contratante, num estelar hotel situado na constelação da Alameda Santos. Pela primeira vez neste endereço, presto mais atenção à minha volta.

Cedo chegando ao café da manhã, vou prestando atenção aos hóspedes. Pela vez primeira noto, num hotel com estrelas de marechal, a extraordinária presença de negros (me desculpem os politicamente corretos, mas fui educado por militantes da escola black power, onde usar tal denominação era um atestado de afirmação contra a discriminação, um gesto de luta tal qual o dito repetido por Muhammad Ali: “Black is beautiful!” – sigo fiel a essas orientações e particularmente acho o epíteto “afrodescendente” uma tergiversação ridícula).

Seis pessoas de pele negra (nenhum mulato) e nove indivíduos de pele esbranquiçada. Uma relação inédita, em tais ambientes, a meus olhos. Menino! Parece mesmo que estão certas as teses acerca da inexistência da discriminação racial (mais especificamente, de cor da pele). Inegável. Pioneiramente, estava podendo checar uma participação paritária em termos de tons da epiderme e traços étnicos (cabelos, narizes, lábios…) que desmontavam a minha visão sobre este tema. Achava eu até então que a discriminação racial (de cor) era tragicamente real no Brasil e, numa análise de resultados sociais, mais danosa que a historicamente registrada nos Estados Unidos.

Até este café da manhã tinha certeza sobre a hipocrisia da “integração racial” brasileira. À minha vista, a paz aparente estaria ligada a pouca inserção socioeconômica das pessoas de pele negra e traços negroides. Enxergava eu nos conflitos pesados que marcaram boa parte da história norte-americana a contradição básica da disputa duríssima pelos espaços sociais e econômicos nos Estados Unidos. Negros e brancos iam aos tapas, acreditava, mais em função dessa batalha pelos nichos de mercado, pela proeminência social – certamente padecia este acima-assinado de alguma miopia marxista, entronchando o cenário para este lado. Nessa forma de ver, lobrigava eu na explícita modificação do modus vivendi ianque (o presidente negro não me deixaria mentir) uma estabilização e consolidação da inserção socioeconômica do black people no american life. Seria a paz pela inevitabilidade dos de pele negra tomarem café da manhã paritariamente com os de pele rosada num estabelecimento de razoável luxo.

Achava que tal cena só poderia ser vista nos Estados Unidos.

Estava vendo-a no Brasil! Cena maravilhosa. Enfim, os brasileiros de pele negra e cabelo pixaim estavam sentados lado a lado, em pé de igualdade quantitativa, com brasileiros de pele esbranquiçada e cabelos lisos (quem os tem, lógico).

Enlevado com a visão, fui atentando para outro sentido: a audição. Com instinto jornalístico, afinei os ouvidos para intrometer-me à conversa alheia. Do que conversariam tão animadamente, igualitariamente empolgados?

Mobilizados, os tímpanos foram expandido seu raio de ação. A audição espalhou-se para as miscigenadas mesas ao arredor. Que falavam? Não entendi. Monoglota, lamentei pela enésima vez essa minha debilidade educacional. Era o bom e velho inglês o idioma. Triste, fui recolhendo a atenção, encerrando o desjejum e, descabreado, retornei à realidade brasileira.

Eram americanos os incluídos de pele negra!…

8 Comentários para “Discriminação racial no Brasil: existe ou não existe? – Esta é a questão?”

  1. Flavinha 29. ago, 2011 às 14:37 #

    Caro Ênio
    O preconceito racial existe no Brasil sim, e tá muito mais escancarado do que nós imaginamos. Sou loira dos olhos azuis e meu namorado é negro de cabelos trançados. É muito incômodo andar em Maceió é ver todos os olhares voltarem-se para nós dois. E isso acontece em todos os ambientes: praia, shopping, comércio, ruas… Como se eu fosse obrigada a namorar gente da mesma cor que eu e vice-versa.
    Acredito que o brasileiro precisa deixar de ser hipócritas e acharem que ainda existe no meio de nós alguém de raça pura! Somos misturas belas de negros, índios, europeus, orientais, árabes, e por aí vai…
    E ao contrário do que as pessoas preconceituosas pensam, um casal formado por pessoas de duas raças diferentes não é feio, é belíssimo. É a cara do Brasil.
    Fica apenas o desejo que as pessoas possam evoluir moralmente para aceitar que todas as raças são iguais e que todos merecem o mesmo respeito, além de que todos têm o direito de se relacionar com quem quiser. Não é porque meu namorado é negro que é pagodeiro, ator ou jogador de futebol, como pensam as pessoas ao nos verem juntos. Ele é inteligentíssimo, tem nível superior, fala dois idiomas e tem um orgulho lindo de sua cor e de sua raça! E pra mim isso é o que importa!

  2. acosta 29. ago, 2011 às 20:42 #

    Triste constatação não é Ênio?
    Eu já percebi isso há muito tempo!!
    Além do preconceito há a falta de oportunidade para uma grande parcela da população pobre e negra!!
    Ser pobre é difícil, ser negro e pobre é mais ainda!!!
    A violência da desigualdade é invisível visto que não se ouve questionamentos iguais a esse!

  3. Marcus Rômulo 29. ago, 2011 às 22:18 #

    Parabéns pelo excelente artigo. Gostei muito. Realmente é difícil ver um negro brasileiro em hotel bom no Brasil que não seja na condição de empregado. O Black Capitalism não chegou ao nosso país.

  4. carlos 30. ago, 2011 às 8:06 #

    Vejo,na minha opinião muito mais discriminação social de que racial.basta ter fama e dinheiro e ser do ramo do futebol ou pagodeiro.Agora pobre e negro a coisa fica mas difícil ainda e o preconceito mostra sua façe mais pervesa.

  5. Paulo 30. ago, 2011 às 12:41 #

    Concordo,vivemos em um país em que a prática da discrminação é por muitas vezes velada, mas acontece.
    Infelizmente algumas pessoas tem a ilusão de pensar que podem inferir sobre as demais pessoas a partir da cor da pele ou condição social.

  6. luciano henrique 31. ago, 2011 às 23:19 #

    enio,a descriminação no brasil e no mundo numca vai acabar.o ator lazaro ramos falou um dia que as pessoas finge que ele não e negro,muitos negros estão na classe media mesmo a assim existe preconceito racial

  7. luciano henrique 31. ago, 2011 às 23:39 #

    enio,no brasil o racismo no brasil e grande,voçe não ver negro trabalhando como caixa de banco,negros em recepções,nas lojas de grifes quanda entra uma pessoa negra eles ja ficam de olho, pensam que vam roubar, isso e ridiculo enio,negros tem pouca oportunidade no mercado de trabalho

  8. Ricardo 03. set, 2011 às 12:39 #

    TENHO A IMPRESSÃO QUE ISSO NUNCA VAI ACABAR! É CULTURA TÁ ENRRAIZADO NO SANGUE!

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